Mecanização Agrícola

Outubro 10, 2006


A mecanização da agricultura já havia alterado, em definitivo, a estrutura da organização agrária, bastando para o efeito referir a introdução das máquinas a fogo. No que respeita à debulha, as ceifeiras debulhadoras, com grande difusão a partir do final da década de cinquenta, iniciaram uma nova dinâmica nesta operação envolvendo apenas o trabalho de um homem, enquanto anteriormente eram necessários 30 a 40 jornais para a realização do mesmo trabalho.

“Pleno verão. As extensas campinas que o Tejo banha e fertiliza e alaga, ainda há pouco de um verde lindíssimo, estão agora a tomar um pouco de côr de erva seca, manchada, aqui e além de umas pinceladas verduscas de vinhedos, e, de longe em longe, umas nódosas escuras movediças de toiros e de cavalos. Já se claram nas eiras os apitos estridentes das debulhadoras e enfardadeiras que vieram roubar toda a poesia à faina das debulhas.

Como eu recordo com saudade aqueles dias ardentes do Ribatejo, em que o movimento das eiras punha uma nota de movimento, de vida, de saúde, em tôda a lezíria, e em que o sol, por mais atrevido que se mostrasse, nem sequer bulia com a epiderme encortiçada dos homens do campo, afeitoa aquilo tudo e a muito mais. Ainda há dias êles haviam deixado em sossego a foice de mão, um dos instrumentos mais leves do seu trabalho e um dos de maior tortura para os desgraçados que tinham de empunha-lo de sol a sol. Com o tronco derreado pelo calor, de corpos dobrados ao meio, a cabeça meio escondida por entre o áspero farfalhar das espigas secas, chegavam à noite sem se puderem manter de pé; mas depois vinha a eira, que era uma especie de tregua na rudeza dos trabalho; era o armistício de todas as alfaias da terra. As charruas lá estavam esquecidas, à sombra dos aposentos, até ao proximo alqueive; as grades empinadas aos prumos do palheirão, e, alinhadas como peças de enorme parque de artilharia, os carros e carretas de altas rodas, esperavam que os bois acabassem a faina das eiras, para voltarem as rodas pelas estradas da Lezíria, carregados de utensílios, de sementes, de apetrechos para a preparação de novas culturas.

Os homens assobiavam, riam, cantavam os seus cantáres monótonos em que os restos de alma árabe punha dolências estranhas. As éguas, atreladas aos trilhos, espertadas, de vez em quando, pelo estalar do chicote que lhes não tocava, ou pelo acenar da vara que lhes não batia, pareciam contentes, como se adivinhassem que nem só o dono da herdade se regalaria de ficar com os celeiros a abarrotar; também as medas e palheiros ficariam bem providos para os dias escassos de inverno.

À sombra da barraca, limpando o suor às costas da mão, o maioral vigiava tudo com uma atenção nunca descurada. O patrão podia demorar-se lá para Lisboa à sua vontade que não fazia cá falta nenhuma. O serviço fazia-se à mesma, e se não fosse alguem pensar que lhes desviavam uma palha que fosse. Não, que a gente da Borda de Agua, gente bôa e sã, não costuma viver senão do seu suor, que lhe cai em bicas pelo rosto escurecido do sol e das geadas; a gente da Borda de Agua sabe muito bem que, sendo da gente Portuguêsa a que menos possue, é tambem a mais rica de todo o Portugal. Os trigos são da côr do oiro e oiro são tambem: Haja abundância nos celeiros do patrão, que a fome nunca se atraverá a transpôr os umbrais humildes da sua pousada de tojos.

E’ verdade que as coisas mudaram muito. Dantes cada grade ocupava um abegão e um rapaz para rabejar a grade; e eram muitas. Cada duas juntas de lavoira, na extensa tralhoada que abria regos de um quilómetro de comprido dava serviço a dois homens; e hoje… com essa invenção das máquinas, foi o diabo que lhes caíu em casa. Para tocar dois bois, para meter ao arado os toiros ainda em bruto, lá estavam eles, os homens do Ribatejo; mas para as máquinas que tanto servicinho lhes vieram roubar, começaram a aparecer uns homens de fatos de ganga, cuja linguagem êles mal percebiam e que parece que ganhavam mais num dia de serviço que os campinos numa semana. Mas … quem mandava era o patrão; e o que o patrão diz é o que se faz. Ali não se respinga.

Hoje é preciso menos gado; são precisas menos fôlhas de pastagam que dantes; talvez isso seja para êles um bem, talvez.

Ah! Mas deixem-se lá de coisas. Com que saudades a gente recorda a antiga faina das debulhas, quando elas eram feitas a unha de cavalo e de boi.

Ainda há pouco um velhote me disse desalentado, cofiando as suissas:

- Ma’ rais partam tanta mánica! Sumidas fossem elas!” (Serra Frazão, 1939)

Com efeito, as alterações introduzidas com a mecanização de todas as tarefas relativas, por exemplo, à produção do arroz, nomeadamente a utilização da monda química ou das ceifeiras-debulhadoras, conduziram a uma redução drástica no números de horas necessárias para o cultivo de um hectare de arroz. Menos tempo e menos gente envolvida nos trabalhos agrícolas que, marcam, naturalmente, de forma definitiva, outras rotinas e outras realidades da lezíria.


Expor é comunicar!

Outubro 10, 2006

 

 

 

 

A exposição é uma forma de comunicar, uma linguagem para a comunicação.

Porque é durante as exposições, quando os objectos estão expostos que entendemos e conhecemos histórias de vida.

E um MUSEU deve ser um espaço de entretenimento público, dispondo de um sistema de comunicação adequado, no sentido de também promover a transmissão de conhecimentos.

As exposições apresentam o património cultural e, para o desenvolvimento deste trabalho, importa seguir uma metodologia bem definida:

 

A programação do Museu Municipal obedece à realização de uma exposição temática anual que envolve um vasto trabalho de pesquisa e investigação. No entanto, ao longo do ano desenvolvem-se outras actividades, nomeadamente outras exposições, oficinas com o público escolar e outras iniciativas de sensibilização para as questões do património.

Assumindo a efemeridade da exposição, enquanto elemento de comunicação privilegiado com o público, as exposições são acompanhadas de catálogo que permanecerá como elemento de consulta.

 


Debulha

Outubro 10, 2006

“O largo trilho de ferro, puxado por dez ou doze cobras de eguas, cada cobra, ou trela, composta de três animaes, rodava por sobre (…) , que aqueles, tocados pela vara do maioral, colocado no centro da eira, iam tambem pisando, até que o tio Brás mandava fazer alto, porque calculára que tudo estava debulhado. E sempre assim era. Empunhando então grandes forquilhas de madeira, principiavam os eirantes a levantar a palha e a atirá-la para a comprida e farta párga que se formara no comoro da eira. Depois, quando o vento estava de feição, mandava esmoinhar com as forquilhas mais pequenas. Saía, então, a palha miuda e era de ver o tio Brás zangado se o vento travissio, como ele o classificava, não deixava esmoinhar a tempo de vir, cedo, a colheita do dia para os celeiros da vila. Era quasi sempre o tio Brás que ia cónhar o monte do genero debulhado, usando do conho, vassoura de pampostos, especie de malmequeres bravos, com que se limpam, (…) , os restos de palha ou impurezas que as esmonhadeiras não poderam trazer, e isto depois que os eirantes juntaram o monte, com as burras, especie de rodos de comprido cabo. Era ainda ele quem mandava “dar volta” ao monte, para que o vento sacudisse o joio, quando o genero era levantado ao ar nas largas pás de madeira. E sentia-se sempre feliz quando, ao sol pôr, tinha a debulha ensacada e a palha carregada nas redes de tamiça, em que os carros chiadores a conduziriam aos palheiros da vila, onde ficaria armazenada. E’ que ele bem sabia que, não estando tudo pronto a essa hora, já se “ensarilhava o carreio das paveias” para a debulha do dia seguinte, porque não é de boa pratica carregar essas paveias de dia, pois a humidade da noite e das madrugadas permite mexer-se, nos molhos ceifados, sem que se debulhem na terra as ressequidas espigas. Que dormissem uma sesta maior, recomendava sempre o tio Brãs, mas não deixasse a eira de estar atuchada ao nascer do sol. E todos lhe davam razão e de boa mente lhe obedeciam. E p’ra cuidar da saúde de cada um? Olhe lá o tio Brás não deixasse ir os eirantes, para a esmoinha da palha, sem levarem a cabeça envolta n’um lenço, para que a moinha não lhes entrasse para os ouvidos e a camisa para fóra das calças, á maneira de avental, para que a pragana não lhes picasse a cintura. E, quando o sol vinha mais ardente e o serviço havia de continuar para se aproveitar o vento favoravel, era o tio Brás o primeiro a recomendar que posessem chapeus, que, ele proprio, arranjava na vila, pedindo-os aos que, por já velhos, tinham deixado de usa-los.”


Conservação e Restauro

Outubro 10, 2006

A conservação e o restauro das peças é uma operação muito específica, tanto no que respeita à intervenção a realizar como ao tipo de técnica a utilizar, pelo que deverá ser executado por um técnico especializado.

O critério de preservação da autenticidade deve ser atentamente considerado e ponderado pelo especialista, sob pena de, irremediavelmente, arruinar uma qualquer peça.

Assim, o técnico deve ter em conta os seguintes procedimentos:

  • análise do objecto
  • limpeza superficial
  • avaliação dos critérios de autenticidade
  • definição do projecto de intervenção
  • execução

Paralelamente, é realizado um registo documental preciso que permite a caracterização de todo o processo de intervenção.

 

 

 

 

 

 

Fases da intervenção de restauro do carro lezirão (1999)


Ceifa

Outubro 10, 2006

Pelo mês de Setembro, fazia-se a ceifa e o rancho, com a foice na mão direita cortava as panículas que, à esquerda, ia dispondo em gavelas. Todo este trabalho, feito por grandes ranchos era, exclusivamente, manual necessitando apenas de foices ou verdugos e de muita, muita resistência física.

 

Quando nos referimos à cultura do arroz, o arrozeiro indicava os canteiros a ceifar e o pardaleiro – normalmente um jovem – encarregava-se de afastar a pardalada batendo com latas “e o seu brado ecoava lezíria fora”(Alves Redol, 1969).

No próprio canteiro iniciava-se, depois da ceifa, a ata, consistindo esta operação em atar os molhos com baraços feitos da própria espiga. O arroz era por fim transportado para a eira, em trenós.

A debulha a “pé de besta” ou calcadoiro e a malho eram os processos mais utilizados, sendo depois o grão limpo ao vento com a ajuda de uma pá e, mais tarde, com a tarara.


Campino

Outubro 10, 2006

O guardador de touros é vulgarmente designado por campino. Esta expressão tem constituído a referência etnográfica, quase exclusiva, do Ribatejo pitoresco. A bravura do touro, a paisagem a perder de vista e a permanência solitária no campo, concorreram para que se acentuassem os feitos e se evocassem os actos de coragem e valentia desta “figura da lezíria que nasce e morre nos campos da Borda d’água” (M.Mesquita, 1908).

 

O termo campino adquiriu um significado tão amplo que ultrapassou tosos os qualificativos profissionais, é o guardador que se faz campino. Campino é aquele que sabe campinar, os que são realmente guardas de touros e sabem “proceder à enchocalhação, conduzir o gado nas tentas, nas ferras, encaminhá-lo para a manga e para o enjaulador, orientá-lo nas largadas e nas esperas, fazê-lo recolher após a lide tauromáquica” (Micaela Soares, 1991).

Aprender a campinar, à parte os falsos simbolismos dos cortejos e festas de touros, é uma vida. O rapaz começa por ser o anojeiro, contacta directamente com o moiral e vai-lhe aprendendo o ofício, trata dos anojos – os animais doentes e velhos. Mais tarde torna-se o roupeiro “aquele que rompe com tudo o que é preciso”, as alfaias para os trabalhos da lavoura, ajudando na guarda e tratamento dos gados. Passa, então a maioral das éguas e depois maioral dos bois – bois da terra, os que trabalham e bois da boa vida, os de lide, e o moiral “tanto os experimenta na valentia como os doma sob a canga”. No topo encontra-se o abegão “que dirige o trabalho da sementeira e que governa em todos os outros trabalhos” (Leite Vasconcelos, 1936).


Fonte do Concelho

Outubro 9, 2006

 

A referência mais antiga que possuímos relativa à Fonte do Concelho encontra-se nas “Memórias Paroquiais”, de 1758, coordenadas pelo Padre Luís Cardoso e que resulta de um inquérito dirigido a todos os párocos. Neste documento, o pároco de Samora Correia refere a existência de “huma fonte chamada do concelho que suas águas sam boas para os olhos e de que faz menção (…) medicinal”. Temos, assim, que no início da segunda metade do século XVIII, a fonte é a única mencionada, possuindo ainda propriedades terapêuticas. Embora esta constitua a referência documental mais segura sobre a antiguidade da Fonte, as características construtivas que assume remetem para um período anterior, provavelmente para o século XIV, logo num enquadramento de tradição românica.

A fonte é uma construção simples, apresentando um arco em pedra de dimensões regulares, 3,5 metros de largura por 1,55 metros de altura, e tecto abobadado. No interior define-se um tanque com cerca de 70 cm de profundidade encimado pela referida abóbada. É uma construção que não ostenta quaisquer elementos decorativos, de tipo simples e cujos paralelos com outras fontes são frequentes. No entanto, a data de construção é naturalmente atribuível ao momento de fixação e criação deste núcleo urbano o que valoriza a sua existência no contexto da história local.


Igreja da Misericórdia de Benavente

Outubro 9, 2006

A Igreja do Espírito Santo da misericórdia teve origem numa modesta capela do século XIII. Após numerosas intervenções, das quais se destacam as dos séculos XVI e XVII, a igreja apresenta as características que tem hoje. Neste edifício funcionava o hospital e a roda dos expostos.

Desenvolve-se ao longo do comprimento da rua, possui uma nave central e, no extremo oposto do altar, existe um varandim que comunicava com o Hospital. As paredes são revestidas a azulejos, provenientes do Convento de Jenicó.


Fonte de Santo António

Outubro 9, 2006

 

A Fonte de Santo António, construída no final do século XVIII, constituiu a primeira canalização pública existente na vila. A água era canalizada a partir da Fonte de D.João V, nos Camarinhais, e neste local vinham abastecer-se de água, nas tradicionais quartas de água, a população de Benavente. 


Igreja da Misericórdia de Samora Correia

Outubro 9, 2006

 

A antiga capela do Espírito Santo data do final do século XV início do século XVI. No início do século XVIII foi inteiramente remodelada no exterior, conservando no interior os azulejos, o cadeiral dos irmãos do Espírito Santo e o Retábulo. A partir de então passou a designar-se por Igreja da Misericórdia.


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