Mecanização Agrícola


A mecanização da agricultura já havia alterado, em definitivo, a estrutura da organização agrária, bastando para o efeito referir a introdução das máquinas a fogo. No que respeita à debulha, as ceifeiras debulhadoras, com grande difusão a partir do final da década de cinquenta, iniciaram uma nova dinâmica nesta operação envolvendo apenas o trabalho de um homem, enquanto anteriormente eram necessários 30 a 40 jornais para a realização do mesmo trabalho.

“Pleno verão. As extensas campinas que o Tejo banha e fertiliza e alaga, ainda há pouco de um verde lindíssimo, estão agora a tomar um pouco de côr de erva seca, manchada, aqui e além de umas pinceladas verduscas de vinhedos, e, de longe em longe, umas nódosas escuras movediças de toiros e de cavalos. Já se claram nas eiras os apitos estridentes das debulhadoras e enfardadeiras que vieram roubar toda a poesia à faina das debulhas.

Como eu recordo com saudade aqueles dias ardentes do Ribatejo, em que o movimento das eiras punha uma nota de movimento, de vida, de saúde, em tôda a lezíria, e em que o sol, por mais atrevido que se mostrasse, nem sequer bulia com a epiderme encortiçada dos homens do campo, afeitoa aquilo tudo e a muito mais. Ainda há dias êles haviam deixado em sossego a foice de mão, um dos instrumentos mais leves do seu trabalho e um dos de maior tortura para os desgraçados que tinham de empunha-lo de sol a sol. Com o tronco derreado pelo calor, de corpos dobrados ao meio, a cabeça meio escondida por entre o áspero farfalhar das espigas secas, chegavam à noite sem se puderem manter de pé; mas depois vinha a eira, que era uma especie de tregua na rudeza dos trabalho; era o armistício de todas as alfaias da terra. As charruas lá estavam esquecidas, à sombra dos aposentos, até ao proximo alqueive; as grades empinadas aos prumos do palheirão, e, alinhadas como peças de enorme parque de artilharia, os carros e carretas de altas rodas, esperavam que os bois acabassem a faina das eiras, para voltarem as rodas pelas estradas da Lezíria, carregados de utensílios, de sementes, de apetrechos para a preparação de novas culturas.

Os homens assobiavam, riam, cantavam os seus cantáres monótonos em que os restos de alma árabe punha dolências estranhas. As éguas, atreladas aos trilhos, espertadas, de vez em quando, pelo estalar do chicote que lhes não tocava, ou pelo acenar da vara que lhes não batia, pareciam contentes, como se adivinhassem que nem só o dono da herdade se regalaria de ficar com os celeiros a abarrotar; também as medas e palheiros ficariam bem providos para os dias escassos de inverno.

À sombra da barraca, limpando o suor às costas da mão, o maioral vigiava tudo com uma atenção nunca descurada. O patrão podia demorar-se lá para Lisboa à sua vontade que não fazia cá falta nenhuma. O serviço fazia-se à mesma, e se não fosse alguem pensar que lhes desviavam uma palha que fosse. Não, que a gente da Borda de Agua, gente bôa e sã, não costuma viver senão do seu suor, que lhe cai em bicas pelo rosto escurecido do sol e das geadas; a gente da Borda de Agua sabe muito bem que, sendo da gente Portuguêsa a que menos possue, é tambem a mais rica de todo o Portugal. Os trigos são da côr do oiro e oiro são tambem: Haja abundância nos celeiros do patrão, que a fome nunca se atraverá a transpôr os umbrais humildes da sua pousada de tojos.

E’ verdade que as coisas mudaram muito. Dantes cada grade ocupava um abegão e um rapaz para rabejar a grade; e eram muitas. Cada duas juntas de lavoira, na extensa tralhoada que abria regos de um quilómetro de comprido dava serviço a dois homens; e hoje… com essa invenção das máquinas, foi o diabo que lhes caíu em casa. Para tocar dois bois, para meter ao arado os toiros ainda em bruto, lá estavam eles, os homens do Ribatejo; mas para as máquinas que tanto servicinho lhes vieram roubar, começaram a aparecer uns homens de fatos de ganga, cuja linguagem êles mal percebiam e que parece que ganhavam mais num dia de serviço que os campinos numa semana. Mas … quem mandava era o patrão; e o que o patrão diz é o que se faz. Ali não se respinga.

Hoje é preciso menos gado; são precisas menos fôlhas de pastagam que dantes; talvez isso seja para êles um bem, talvez.

Ah! Mas deixem-se lá de coisas. Com que saudades a gente recorda a antiga faina das debulhas, quando elas eram feitas a unha de cavalo e de boi.

Ainda há pouco um velhote me disse desalentado, cofiando as suissas:

– Ma’ rais partam tanta mánica! Sumidas fossem elas!” (Serra Frazão, 1939)

Com efeito, as alterações introduzidas com a mecanização de todas as tarefas relativas, por exemplo, à produção do arroz, nomeadamente a utilização da monda química ou das ceifeiras-debulhadoras, conduziram a uma redução drástica no números de horas necessárias para o cultivo de um hectare de arroz. Menos tempo e menos gente envolvida nos trabalhos agrícolas que, marcam, naturalmente, de forma definitiva, outras rotinas e outras realidades da lezíria.

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3 Responses to Mecanização Agrícola

  1. alan petroceli diz:

    preciso saber o nome dos componenteda roda da carreta para um trabalho

  2. Adriana diz:

    Ola quero saber noções básicas de mecanização agrí
    cola

  3. Olá ,gostaria de conhecer os requesitos para me candidatar a uma ou várias exposições em vossos espaços para o efeito e se há essa posibilidade

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