Debulha

“O largo trilho de ferro, puxado por dez ou doze cobras de eguas, cada cobra, ou trela, composta de três animaes, rodava por sobre (…) , que aqueles, tocados pela vara do maioral, colocado no centro da eira, iam tambem pisando, até que o tio Brás mandava fazer alto, porque calculára que tudo estava debulhado. E sempre assim era. Empunhando então grandes forquilhas de madeira, principiavam os eirantes a levantar a palha e a atirá-la para a comprida e farta párga que se formara no comoro da eira. Depois, quando o vento estava de feição, mandava esmoinhar com as forquilhas mais pequenas. Saía, então, a palha miuda e era de ver o tio Brás zangado se o vento travissio, como ele o classificava, não deixava esmoinhar a tempo de vir, cedo, a colheita do dia para os celeiros da vila. Era quasi sempre o tio Brás que ia cónhar o monte do genero debulhado, usando do conho, vassoura de pampostos, especie de malmequeres bravos, com que se limpam, (…) , os restos de palha ou impurezas que as esmonhadeiras não poderam trazer, e isto depois que os eirantes juntaram o monte, com as burras, especie de rodos de comprido cabo. Era ainda ele quem mandava “dar volta” ao monte, para que o vento sacudisse o joio, quando o genero era levantado ao ar nas largas pás de madeira. E sentia-se sempre feliz quando, ao sol pôr, tinha a debulha ensacada e a palha carregada nas redes de tamiça, em que os carros chiadores a conduziriam aos palheiros da vila, onde ficaria armazenada. E’ que ele bem sabia que, não estando tudo pronto a essa hora, já se “ensarilhava o carreio das paveias” para a debulha do dia seguinte, porque não é de boa pratica carregar essas paveias de dia, pois a humidade da noite e das madrugadas permite mexer-se, nos molhos ceifados, sem que se debulhem na terra as ressequidas espigas. Que dormissem uma sesta maior, recomendava sempre o tio Brãs, mas não deixasse a eira de estar atuchada ao nascer do sol. E todos lhe davam razão e de boa mente lhe obedeciam. E p’ra cuidar da saúde de cada um? Olhe lá o tio Brás não deixasse ir os eirantes, para a esmoinha da palha, sem levarem a cabeça envolta n’um lenço, para que a moinha não lhes entrasse para os ouvidos e a camisa para fóra das calças, á maneira de avental, para que a pragana não lhes picasse a cintura. E, quando o sol vinha mais ardente e o serviço havia de continuar para se aproveitar o vento favoravel, era o tio Brás o primeiro a recomendar que posessem chapeus, que, ele proprio, arranjava na vila, pedindo-os aos que, por já velhos, tinham deixado de usa-los.”

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