Terramoto de 1909

Outubro 11, 2006

 

 

 

 

23 de Abril de 1909, 17:05 horas

Forte abalo sísmico arrasa parte do Ribatejo, fazendo sentir-se em todo o país. Benavente, Samora Correia, Santo Estevão e Salvaterra de Magos ficam destruídas. Em Benavente não fica uma casa de pé.

Interrompidas as comunicações telegráficas, as primeiras notícias do ocorrido em Benavente chegam a Santarém através de um lavrador que aí se dirige de automóvel.

A população em pânico começa a juntar-se no largo do Chaveiro.

Cerca das 23 horas começam a chegar automóveis de Santarém com o Governador Cívil , o chefe da polícia, guardas cívicos e bombeiros.

De Lisboa seguem médicos e “artigos de penso”.

O balanço é de 24 mortos em Benavente e 15 em Samora Correia.

Ao longo da noite ouvem-se fortes e prolongados ruídos subterrâneos.

Testemunho de um funcionário público sobre o ocorrido:

” Tinha acabado de jantar e, conforme os meus hábitos deitara-me um pouco a lêr os jornaes. Pouco depois das cinco horas senti uma violenta sacudidela, tão grande que me pareceu que a minha casa se partia. Vim a rolar no meio do quarto. Levantei-me de um salto. Em seguida senti outro estremeção mais forte e foi então que tive a noção exacta de que era um abalo de terra. Vejo as paredes fenderem-se de alto a baixo. Os vidros das janelas fazem-se em estilhas. Ouço um ruído enorme, seco, profundo, um estrondo subterrâneo que se não descreve. Lanço mão ao casaco e ao chapéu, de um pulo galgo as escadas e chego à rua. Precisamente neste momento a minha casa alui como se fosse cartas de jogar. Na minha frente outras casas se desmoronam. Nuvens colossais de poeira elevam-se nos ares. Sinto-me asfixiado. Quero fugir e não posso. As pernas recusam-se ao mais leve movimento. Os gritos de toda a visinhança são aterradores. Não sinto o coração, gela-se-me o sangue nas veias e o cérebro paralisa-se-me. Vejo-me perdido.

Mas tudo isto durou um momento. Num grande esforço sobre min mesmo, consigo reunir todas as minhas energias, como quem quer salvar-se de uma morte certíssima. E corro à toa por aquellas ruas fora, cheio de um pavor de que nem sei dar uma ideia aproximada. Estava positivamente doido. Queria prestar auxílios e ainda complicava mais a situação angustiosa dos que estavam perdidos nos escombros. As derrocadas eram constantes. O barulho infernal dos prédios a cahir, os gritos de dôr de uma população inteira, as nuvens de pó e caliça, densíssimas que escureceram o ceo como se fosse noite, o aspecto desolador da vila em ruínas são coisas que nunca mais poderei esquecer. (…). Em seguida ao terramoto toda a população fugiu para o campo sem destino (…). Muitos sobreviventes, como loucos, queriam arrancar a todo o custo, pessoas queridas que tinham ficado sob as ruínas. Os lamentos e queixumes dos feridos e os gritos desesperados e lancinantes das pessoas que procuravam o pae, a mãe, um filho ou irmão, conservo tudo isto na minha memória e encheu-se-me o coração de uma angústia profundíssima.”

24 de Abril

Segue força militar e tendas de campanha “vinte parelhas de muares com barracas disponíveis no arsenal do exercito, 200 mantas, camas e outro material de depósito de roupas; médicos e enfermeiras do Hospital Militar da Estrela.”

Reunião do conselho de ministros para tomar providências, à excepção do Ministro das Obras públicas que já seguira para Benavente.

A população reúne-se em acampamentos.

A fome começa a sentir-se.

Arrombamento da cadeia e fuga dos presos para apoiar as vítimas.

Os feridos começam a ser transportados num vapor para Lisboa.

Visita do Rei D. Manuel aos locais sinistrados.

25 de Abril

Cruz Vermelha instala um posto de socorros.

26 de Abril

Os mantimentos são insuficientes. Embora existam cerca de 1000 sacos de farinha não foram providenciados fornos para cozer o pão.

São poucas as tendas de campanha com o mínimo de condições.

27 de Abril

Reunião da Câmara Municipal de Benavente, das Associações e colectividades e dos 40 maiores contribuintes do Conselho, ao ar livre, no pátio do Dr. Sousa Dias, É eleita uma comissão Municipal de socorros.

No largo do Chaveiro venera-se a imagem de N. Sra. da Paz, salva dos escombros da capela.

Chega uma força do exército para fazer o policiamento da vila, a povoação é cercada por um cordão militar.

Brito Camacho, em visita à área sinistrada, fala sobre a causa republicana. Bernardino Machado percorre também a região.

Verificam-se manifestações de solidariedade poe todo o país: subscrições públicas, donativos particulares, bandos precatórios, espectáculos públicos…

Conselho de Estado reúne para decretar a abertura de um crédito especial de 100 contos de réis.

Ministro das obras públicas nomeia comissão de geólogos para estudar região ribatejana.

Suspendem-se as comemorações do primeiro de Maio em sinal de luto.

É autorizado o abate de 400 pinheiros na região da Azambuja para a utilização da madeira para a construção de abarracamentos.

Ascende a 35 o número de mortos.

Excerto de uma enviada por um residente em Benavente e lida na Câmara dos Deputados.

“(…) não há casas, não temos pão apesar de tanto se ter pedido! E a este respeito diga V. na Câmara que nos mandem pão da Manutenção Militar, pois parece impossível que se deixe estar assim um sem número de pessoas, de crianças, sem lhes dar ao menos pão!! É horrivel! Nós fomos pelos destroços das lojas, buscar caixas que escapassem com bolos, para ao menos as crianças se manterem! Pois, então com uma padaria militar até hoje não nos mandam pão com fartura! Reclame V. isso em nome deste desgraçado povo na Câmara. Há felizmente pouca gente morta, por ora uns 30, mas há muitos feridos de gravidade e outros sem estarem neste estado! (…)

28 de Abril

Continua a grande afluência de gente à região sinistrada.

Não há pão e falta madeira para a construção de abrigos.

Um jornalista do “Times” visita Benavente.

(in “Estudo Histórico e Descritivo de Benavente”, de Rui de Azevedo)

 


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